Quinteto Etílico

 



Quinteto Etílico


Ninguém pareceu levar muito a sério a ideia de fazer um curso básico sobre vinho transmitido pela internet. Porém, aos poucos, a coisa foi tomando forma. Um fez a inscrição, o outro fez também e, logo, quase todo mundo tinha feito. Sendo todos clientes regulares da empresa promotora do curso – que, em verdade, é uma importante distribuidora da bebida no Brasil – ficou fácil chegar à ideia de comprarmos um kit com as quatro garrafas e assistirmos juntos as aulas.

Só que a ideia foi melhorada: ao invés de comprar o kit pronto e aguardar sua chegada pelos meios de entrega de praxe, poderíamos economizar o frete e o tempo da espera se comprássemos os vinhos no comércio da cidade. Isso contribuiria para a economia local e nos ajudaria a entender melhor os vários detalhes dos vinhos listados no kit. Em outras palavras: começaríamos a aprender mesmo antes de as aulas acontecerem!

Dona de um senso prático imbatível, a professora de artes se encarregou de fazer as buscas, enquanto dois membros do quinteto atuaram na retaguarda, checando, pelo aplicativo de mensagens, a  equivalência entre as bebidas encontradas no comércio e aquelas que formavam o kit da distribuidora. A economia nem foi tanta, pois os preços do kit da distribuidora realmente estavam muito bons.

Uma vez em posse das garrafas, restava decidir onde seria instalada a nossa sala de aula. Claro que optamos pelo apartamento do casal, pois, sem a assessoria do caçula de 9 anos, jamais o grupo de maduros conseguiria colocar na tela da tevê as aulas que foram transmitidas pelo aplicativo de vídeos instalado nos celulares. Somos modernos à moda antiga.

Para começar, pensamos em tudo, menos em um detalhe: no que comer. Assim, obviamente, a primeira aula terminou em pizza. No segundo encontro, a professora anfitriã nos preparou uma surpresa: um maravilhoso caldo verde! E eu não demorei para perceber que o curso acrescentaria alguns quilinhos à minha já cilíndrica silhueta. Sim, porque, ao contrário de todos os demais alunos, que praticam corrida e frequentam treinos em academias regularmente, eu sou o sedentário do grupo – aquele que coleciona calorias extras com a mesma eficiência que o bilionário Jeff Bezos ganha milhares de dólares por minuto.

Para a terceira aula, bem no meio da semana, fizemos uma pausa programada. Nosso bombeiro estaria de plantão em São Paulo, desfalcando a turma. Assim, nos organizamos para, no dia seguinte, assistirmos duas aulas de uma vez: uma ao vivo e a outra gravada. A coisa mais ou menos funcionou. É que, clandestinamente, as duas alunas da turma assistiram o curso naquele dia – fato altamente esperado, pois, tendo duas professoras no grupo, era de se esperar que elas não conseguissem faltar à aula... Força do hábito.

No dia da penúltima aula, surgiu um imprevisto: nosso anfitrião havia se submetido a uma pequena cirurgia na capital e não conseguiu chegar a tempo. O que nem foi a pior notícia para ele. O fato complicado era que, a partir daquele dia (e pelas próximas semanas), o advogado do grupo teria que ficar longe de vinho, por conta dos remédios envolvidos no delicado pós-operatório. Mas ele participou da degustação de queijos e embutidos que estava prevista para aquele encontro, claro.

Foi também o dia em que eu resolvi arriscar e preparar uma receita de geleia de pimenta – sem nunca ter comido geleia de pimenta na vida! A cor ficou muito bonita e igual à imagem das receitas que eu vi na internet. E o sabor? Eu não teria como saber. Para piorar, ninguém no grupo tinha provado geleia de pimenta antes – o que não nos impediu de concluir que o resultado ficara muito bom. Conclusão que, diga-se de passagem, não ajuda muito, pois os amigos tendem a dar apoio irrestrito mesmo para os piores cozinheiros. Resultado pessoal: eu nunca saberei a verdade sobre minha geleia de pimenta...

A sexta-feira chegou e, com ela, o último dia de aula. O tempo passou rápido e nem percebemos – situação que pode ser ilustrada com dois fatos: ao chegar ao prédio, o porteiro nos tratou como moradores – inclusive nos sugerindo uma vaga no desértico estacionamento interno do condomínio. Ademais, o cachorro também não latiu quando ingressamos no apartamento.

Como havíamos acumulado uma aula para assistir, o último encontro virou um evento, pois teríamos um intervalo entre uma aula e outra e também teríamos a comemoração de formatura. O cardápio, portanto, ficou à altura: no intervalo, crepioca de frango com queijo branco (que eu, com meu paladar apuradíssimo, achei o tempo todo que fosse atum com ricota). E, no final, hambúrguer artesanal com batata frita – que as crianças adoraram (e os adultos, também, mas disfarçamos o entusiasmo, claro).

Esse ainda foi o dia das revelações surpreendentes...

A mais importante foi constatar que um dos membros da turma não receberia o certificado de participação, pois não se inscrevera oficialmente no curso. E agora? Foi um balde de água fria! É que ele havia assistido a todas as aulas e inclusive se comprometera, com o aprendizado acumulado, a abandonar a predileção por vinhos suaves. Não era justo!

Inevitavelmente, o debate se instalou no seio da turma. Quem sabe se apelássemos para a empresa promotora das aulas? Com um advogado no grupo, a argumentação seria imbatível. Poderíamos juntar as fotos dos nossos encontros: provaríamos que estivéramos juntos o tempo todo.

A solução foi melhor, mais rápida e romântica! A assertiva esposa preencheu o certificado com o nome dos dois: dela e do marido.  O amor é lindo – e prático!

A segunda revelação foi incontornável e funcionou como uma pá de cal na nossa incipiente carreira de “sommeliers”: ao procurar na adega a garrafa prevista para a aula extra do dia, Pinot Grigio, não a encontramos. Como assim? A compra de todos os vinhos estava mais do que documentada: fotos, nota fiscal, palpites. A garrafa deveria estar em algum canto. Secretamente, eu achei que o culpado era o cachorro da família, o pequeno Chico: para mim, ele havia dado cabo da garrafa, em protesto por aquela invasão interminável do seu espaço doméstico.

Depois de muita investigação, incluindo uma severa perícia nas fotos tiradas nos dias anteriores, o óbvio saltou: havíamos tomado o Pinot Grigio no lugar do Vinho Verde. Sim, porque encontramos uma garrafa desse vinho português – quando não deveria haver nenhuma. E o pior: ficou claro que tomamos o vinho italiano como se fosse o vinho lusitano e que não percebemos as enormes diferenças entre um e outro.

Chegamos a uma conclusão óbvia: apesar das excelentes aulas da professora, não aprendemos nada sobre vinhos e vamos ter que fazer o curso de novo! Claro que a conclusão sincera pode ser outra: essa cena inteira foi forjada de propósito só para podermos repetir todas as aulas, todas as garrafas e todos os encontros.

Itanhaém, 19 de setembro de 2020.

Jorge Alves de Lima.



Serviço:

Evino.
Curso Básico de Vinho (https://www.evino.com.br/)

Fonte da imagem:
https://revistaadega.uol.com.br/artigo/que-taca-escolher_149.html

 


Comentários

  1. Jorge, como sempre suas histórias são notáveis. Amei!!! Adoro os elementos surpresa.

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  2. Excelente texto. O curso deve ter sido melhor ainda.

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    1. Obrigadão. Sim, o curso da Evino foi muito bom. A professora Jéssica foi bem didática.

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  3. Jorge, vc é simplesmente maravilhoso. Não sei o motivo por ainda não ter publicado um livro. Passaria horas lendo suas histórias, repletas de detalhes e bom humor. Fiquei apenas com uma dúvida. Repetir o curso seria por conta dos vinhos ou dos acompanhamentos?. Parabéns, belíssima crônica.

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    1. Obrigadão. Repetir o curso seria, antes de tudo, pela companhia dos amigos. Os vinhos e demais acompanhamentos são ótimos complementos. 😊

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  4. Vagalume, vc é um ótimo escritor! Textos leves, bem humorados e que nos levam a enxergar o cotidiano, como o lugar mais desejado de se estar! Parabéns amigo!

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