Café com bolo
Café com bolo
Tenho uma cafeteira italiana que é um charme. Então, quando estou revisando texto, eventualmente, eu aproveito uma das pausas para tomar uma xícara de café fresco, sem açúcar, feito com o pó adquirido em Santos, na histórica região do Valongo, num lugar que tem um atendimento maravilhoso e que mói o produto na hora. A cafeteira é bem rápida e, normalmente, isso basta para reanimar os meus neurônios que, de vez em quando, ficam adormecidos pelo excesso de atenção requerida para encontrar os erros escondidos nos textos dos meus clientes.
Aproveitando as pausas, eu também costumo dar umas caminhadas pela horta e pelo pomar, principalmente porque, depois das 15 horas, o sol filtra-se com uma luminosidade de cinema nesta parte da casa. A atmosfera do cair da tarde, o silêncio da cidade (nem parece que eu moro na região central) e o canto dos passarinhos ficam ainda melhores com o delicioso aroma que emana dos fundos de uma loja que vende os próprios bolos caseiros que prepara. O meu aroma preferido é o de banana com canela! Humm, dá para comer pelas narinas.
Hoje, não foi quase nada diferente, exceto que, para a noite, eu fui convidado para comer empadão de frango na casa de um casal de amigos que está recebendo a família vinda do interior. Como sou um solteiro convicto e no último grau, evidentemente, nunca tenho nada em casa que possa ser uma digna contribuição para esses encontros alimentícios casuais.
Assim, aproveitando a primeira tarde de sol depois de quase uma semana de frio e chuva, fiz uma busca por tenras folhas de erva-cidreira nesta agradável caminhada, pois os meus anfitriões da noite gostam muito de fazer chá.
Quem me visse pelo jardim, não teria dificuldades para imaginar uma nova encenação de "A Branca de Neve e os Sete Anões" (sem os Sete Anões, claro, e apenas com um mulato barrigudo, careca e barbudo inapropriadamente desempenhando o papel principal). Verdade que eu andava calmamente por entre as plantas, escolhendo as melhores folhas de cidreira e, de vez em quando, arrancando algum matinho que crescia aqui e ali. Os passarinhos me rodeavam com uma certa distância – pois só mesmo nos desenhos de Walt Disney passarinhos vêm pousar nas mãos de estranhos no meio do bosque.
Aos poucos, também fui sentido um aroma parecido com o de bolo sendo assado. Sem pestanejar, já imaginei que novas iguarias estavam saindo do forno da loja. Desta vez, contudo, me preocupei um pouco, pois, conforme eu me aproximava da minha casa, o cheiro se parecia mais com o de bolo queimado.
Alguém deve estar ligeiramente apaixonado, pensei, pois a massa de hoje certamente queimou.
Ah, é primavera e o amor está no ar...
Entrei em casa pela cozinha, como de praxe, e me dei conta de que não havia absolutamente nada de amor no ar. Estava, sim, suspensa no ar uma gigantesca coluna de fumaça sobre o meu fogão! É que eu havia deixado a cafeteira italiana no fogo e me esquecera dela completamente...
Pelo visto, do jeito que eu ando desligado, qualquer dia desses, eu vou acabar mesmo é sendo chamado para reencenar "A Bela Adormecida" – sem o príncipe encantado e fazendo também o papel da bruxa malvada.
Itanhaém, 24 de setembro de 2020. Jorge de Lima
https://www.reidocafe.com.br/

Ahahah eu vi a sua horta pela sua descrição, senti o cheirinho do café e do bolo.
ResponderExcluirPena que o café queimou. Estragou a, cafeteira?
A cafeteira italiana é à prova de jorges-de-lima. Está intacta.
ExcluirKkkkk... Só vc mesmo!
ResponderExcluirFantástico!!! Adorei o texto. Parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigado!
ExcluirCuidado menino, queremos nosso moreno de neve vivo.
ResponderExcluirEu estou mais para "Barrigudo das Neves e Os Sete Quilos A Mais"...
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