Olha o Gááááás!

Olha o Gááááás!

O dia a dia da escola gira em torno das crianças. Nas férias, o ambiente, desprovido dos alunos, fica estranhamente vazio, pois o lugar não é o mesmo sem seus agitados protagonistas. Reina, por toda parte, uma calmaria contagiante.

O recesso escolar deste julho poderia ter sido mais um típico período de tranquilidade dentro da escola se não fosse uma novidade.

Acontece que, desta vez, os reeducandos do sistema prisional da região foram admitidos na escola por alguns dias. Eles não foram ocupar as carteiras escolares vazias, na ausência dos alunos. Não: sua presença na escola estava vinculada ao trabalho que eles podem realizar para redução dos dias de reclusão e progressão da pena.

No caso da nossa escola, os prisioneiros foram destacados para ajudar na manutenção, principalmente se ocupando da pintura dos espaços. O trabalho ficou ótimo. Quando as crianças voltaram do recesso, encontraram uma escola bem mais bonita e organizada: as paredes pareciam novas!

Receber os presos significou quebrar um pouco aquela rotina de calmaria própria do recesso escolar. Mas, aos poucos, o clima foi voltando ao normal, pois os apenados, apesar de numerosos, tinham um comportamento exemplar: todos muito educados e solícitos – certamente para não causarem problemas com os agentes de custódia e, com isso, perderem os benefícios do programa de progressão penal. Claro que, também para eles, estar ali representava uma quebra da rotina, trocando suas celas de confinamento por arejadas salas de aula, em um agradável conjunto de pequenos prédios banhados pela brisa do mar.

Passados uns dias da chegada dos forasteiros, os funcionários da escola, reabituados ao silêncio do recesso, tiveram um pequeno momento de agitação, contudo. É que, de repente, um dos presos gritou por uma faca... Faca? A palavra “faca” cortou o ar. Alguns dos servidores prenderam a respiração. Outros, saíram assustados e correram para o pátio. A diretora interviu na hora.

Porém, não tinha sido nada grave...

Sempre solícitos, um dos rapazes havia se prontificado a ajudar a trocar um botijão de gás e, para isso, requereu uma faca com a qual romperia o lacre que veda o vasilhame, permitindo o engate do registro e da mangueira de gás.

Ufa! Ainda bem... E a paz voltou a ocupar os espaços escolares naquele pequeno recesso de inverno.

Itanhaém, 04/12/2019.
Prof. Jorge de Lima

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