Neobandeirante

  Foto do ano da chegada: 2017.

Eu, um neobandeirante?

Morar em um balneário é interessante. Principalmente depois de ter morado quase meio século em uma cidade grande e longe do mar.

No meu caso, é ainda mais interessante, pois o balneário é, antes de tudo, uma cidade pequena -- daí a brincadeira fácil e repetitiva: uma cidade do interior com vista para o mar.

A verdade é que, saindo de São Paulo, com seus 20 milhões de habitantes metropolitanos, não sobra lugar no Brasil para comparações, tanto em tamanho quanto em complexidade. São Paulo é uma cidade superlativa, como poucas no mundo. Por isso, quase todos os lugares ficam em desvantagem se forem feitas comparações. Daí que minha primeira autoprovidência foi essa: "não faça comparações entre as cidades" -- não vai funcionar. São duas realidades distintas.

Os habitantes daqui também não gostam das comparações. Em um muro em um dos acessos à cidade, há, inclusive, uma aviso aos incautos comparativistas: "Itanhaém não tem o que São Paulo tem. Tem o que São Paulo não tem". Simples, direto, verdadeiro.

E talvez essa seja uma verdade para inúmeras outras cidades e inúmeras outras situações na vida. Uma pessoa às vezes sequer consegue comparar a versão de hoje de si mesma com a versão de ontem.

Aqui, como em muitos lugares, há várias cidades dentro do mesmo território municipal.

No balneário, além dos centros histórico e administrativo, há o mar, de modo que a cidade se divide, pela rodovia que a corta, entre o Lado Morro e o Lado Praia. São quase duas "cidades" distintas.

No Lado Morro, há maiores chances de se encontrar o habitante nativo; ou seja, aquele que nasceu aqui, filho de uma primeira geração ou de sucessivas gerações. O caiçara. No Lado Praia, há mais oportunidades de serem encontrados os turistas e os habitantes locais (aqueles que fixaram moradia).

Normalmente, turistas e habitantes entram em embate pelo mesmo território (o Lado Praia). O caso é que ambos afloram à praia quando querem "viver" a cidade. Os nativos, não: eles olham para a orla como se ela fizesse parte de uma outra cidade. É comum, inclusive, eles se referirem ao Lado Praia pelo nome da cidade, como se, de um lado, fosse Itanhaém e, do outro, fosse, sei lá: o próprio bairro onde eles vivem.

Eu moro no Lado Praia e, não fosse a oportunidade de ter lecionado em uma escola no Lado Morro, poderia ter concluído erroneamente que a cidade inteira começa na marginal da rodovia que a corta, pois tudo o que tenho que fazer está de um mesmo lado... O que seria um grave equívoco: 80% do território está no Lado Morro.

Aos poucos, contudo, vou descobrindo o território e, com a ajuda dos amigos locais, vou alargando meus horizontes rumo ao interior do município -- como se eu fosse uma versão moderna dos bandeirantes que daqui partiram para dentro do continente sul-americano, dando ao Brasil boa parte das dimensões atuais.

Vamos às descobertas!

Comentários

  1. Parabéns, Jorge, pela coragem e audácia tão radicais de mudança de espaço e de vida! Sei que você já está aí há algum tempo, mas mesmo assim... Boa sorte em seu "neobandeirismo" em Itanhaém! :)

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    1. Obrigadão, Julio. Segui o caminho de muitos que também se aventuraram para fora da zona de conforto. Se não me engano, você também está longe de casa, não?

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